A CULTURA DO TRABALHO – por Diego Casagrande

Eu era adolescente nos anos 80 quando fui fazer intercâmbio estudantil nos Estados Unidos. Embora não tivesse externado preferência, dei uma sorte danada de cair na Califórnia. Meus pais se separaram quando eu tinha seis anos. Minha mãe foi corajosa em apoiar minha ida. Excetuando os ricos, naquela época não era coisa comum mandar um filho para o exterior. Não tinha internet e falar ao telefone custava uma fortuna. A comunicação era por cartas mesmo. Até hoje tenho dezenas guardadas. Lembro que minha mãe reuniu umas joias do tempo do casamento e foi no penhor da Caixa Federal tirar um dinheiro para viabilizar a viagem. E de repente lá estava eu desembarcando no aeroporto de Los Angeles e batendo de cara com a estátua de John Wayne.

Dias depois segui para uma família de Santa Cruz, bela e antiga cidade praiana mais ao norte. Claro que curti a escola, o clima, as praias, as garotas, as amizades que fiz, as viagens com minha família americana e algumas festas. Mas das coisas que mais me marcaram foi a possibilidade de trabalhar e ganhar dinheiro. Trabalhos rápidos, pagos por hora, que fizeram a alegria do jovem estudante brasileiro. Já na primeira semana, limpando alguns quintais de vizinhos da rua, comprei um tênis Nike de basquete. Acreditem, naquela época ter um par destes no Brasil era coisa dos endinheirados. Também comprei um Walkman, toca-fitas portátil que nem existe mais. Então, sempre que eu saía da escola, por volta de três e meia da tarde, arranjava algo para fazer e faturar uns trocos. Lavei e passeei com cachorros, limpei cocôs de gatos em um viveiro, deixei brilhando quintais sujos, faxinei casas da vizinhança. E nunca saía com menos de US$ 10 por hora trabalhada. Era maravilhoso.

Tenho visto a desolação dos jovens filhos de amigos que voltam ao Brasil depois de um tempo no exterior. Lá eles aprendem o que é ganhar seu próprio dinheiro, ter poder de compra, fazer suas escolhas, ser independente. Daí retornam e não conseguem trabalho. Os que nunca saíram não fazem ideia. É consequência natural de um país que não tem liberdade econômica. Além de difícil e arriscado contratar, não existe a cultura de pagar por hora ou por tarefas. O protecionismo de uma legislação fascista ferrou com as oportunidades, liquidou com o trabalho.

(Diego Casagrande é jornalista, vencedor do Prêmio Liberdade de Imprensa do 29º Fórum da Liberdade; artigo publicado no jornal METRO Porto Alegre)

4 comentários em “A CULTURA DO TRABALHO – por Diego Casagrande

  • Acho que o Brasil é um dos poucos países do mundo que tem uma estrutura jurídica (justiça trabalhista) projetada só pra “ferrar” com aqueles que ainda teimam em empreender nesse país.

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  • Muito bacana esse relato Diego. Vivemos num país condenado, condenado a liberdade!

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  • Também trabalhei quando jovem, lavei carros, vendi jornais na rua, engraxei sapatos, lavei chão de fruteira, e não virei bandido, trombadinha nem traficante.
    Fico p da vida com essa maldita propaganda “politicamente correta”da TV: “é possível ser feliz depois de ter trabalhado na infância.”
    Meus três filhos trabalharam na infância e não viraram bandidos.
    O mais velho é capitão de navio de pesca em Rio Grande, a do meio é advogada, e o mais novo é oficial de justiça. Todos trabalharam na infância.
    Os três se orgulham de terem trabalhado na infância.
    Hoje todos têm casa própria, carros e filhos.
    Já viajaram ao exterior, e a minha do meio, advogada recém formada, voltou sábado de visitar Lisboa, Roma, Nápoles e Veneza.
    E mais não digo, caro Diego.
    Acompanho sempre seu programa.
    Felicidades.

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