O ASSALTO QUE NÃO SE CONCRETIZOU, MAS QUE LIQUIDOU COM UM DOS MEUS PRAZERES… – por Marco Antonio Souza

Sempre gostei de caminhar, caminhar muito. Gostava muito de caminhar à noite. Gostava, não gosto mais.

Porto Alegre, 16 de janeiro de 2018, 21 horas e 30 minutos.

Tinha jantado uma maravilhosa “Torta Suíça” na casa da minha irmã Maria da Graça, conversamos um pouco e me despedi para voltar para minha casa na rua Coronel Bordini, não mais de um quilômetro, quase em linha reta, por ruas movimentadas e bem iluminadas.

Tinha saído sem carro para desfrutar de uma caminhada e quando deixei a casa da Maria da Graça na rua 24 de Outubro, próximo da esquina com a Hilário Ribeiro, estava absolutamente despreocupado… Caminhei um pouco e pela primeira vez – sinceramente não sei o porquê, talvez um “cutuco” – lembrei de tirar um relógio que gosto muito e o coloquei no bolsa traseiro da minha calça. Carrego sempre comigo uma caneta de algum valor e também a coloquei no mesmo bolso.

Lembrei que não tinha um real ou um único centavo comigo e que se fosse assaltado, talvez o ladrão ficasse enfurecido e me matasse pela minha “dureza”. Fiquei imaginando o que pensariam ao encontrar relógio e caneta no bolso traseiro de minha calça.

Ainda assim fui caminhando sem preocupações maiores. Em geral sou muito atento ao que ocorre na minha volta. Ao chegar na esquina da 24 de Outubro com a Quintino Bocaiúva vi um homem, camisa verde, 18/20 anos, com uma aparência ruim, parado com uma bicicleta velha na esquina.

Ao passar por ele percebi que ele tinha me analisado da cabeça aos pés. Não gostei da fisionomia do sujeito e tampouco da forma como fui “escaneado”. Embora não tivesse relógio no pulso, corrente ou qualquer outra coisa de valor, lembrei que meu celular estava no bolso da frente da calça de sarja, apontando com o volume que se desenhava a presença do telefone ou talvez uma carteira.

Fiquei observando com o “rabo do olho” e percebi que ele fez um sinal com a mão, levantando e baixando o braço. Achei que ele estava sinalizando para alguém na outra esquina. Olhei para frente (próxima esquina, da 24 de Outubro com a Bordini) e havia algumas pessoas paradas por lá.

Depois de atravessar a rua (Quintino) eu teria pela frente uma calçada estreita e com um muro alto, enfim um lugar deserto e praticamente com uma única direção. Se viesse alguém pelo outro lado eu ficaria espremido e sem qualquer chance de escapar.

Terminei de atravessar a Quintino, seguindo pela 24 de Outubro, e logo havia um poste de concreto, uma container de lixo e uma árvore grossa, tudo muito próximo.

Logo que passei pela árvore, último obstáculo entre eu e a rua, achei que alguém estava atrás de mim. Virei rapidamente e no meu lado, no meio da rua e não mais de dois metros além da calçada, estava o sujeito que eu tinha passado na esquina.

Foram frações de segundo… Ao olhar para ele, nos encaramos e ele começou a tirar um revólver da cintura. Cheguei a ver que a arma era escura, mas em um salto para trás, deixei a árvore entre eu e ele, evitando que ele tivesse uma linha de tiro contra mim. Ele gritou para eu parar, não correr.

A partir daí corri usando como proteção o container e depois o poste até chegar ao meio dos carros que aguardavam na Quintino a abertura do sinal. Enquanto corria, evitando uma trajetória reta, esperava ouvir o estampido dos tiros… Imediatamente gritei para alertar os carros que estavam parados que estava havendo um assalto. Um motorista parado no sinal numa SUV me ofereceu carona, mas recusei e segui caminhando até minha casa com o maior cuidado.

Não fiquei nervoso, fiquei muito brabo. Voltei para casa, peguei o carro e tentei achar o cara. O que faria??? Não sei… Feliz ou infelizmente não o achei.

Não fui assaltado, mas o fato acabou com o meu prazer de ir do escritório para casa à noite e até caminhar um pouco pelas ruas depois do anoitecer.

Fiz o que não deveria ter feito, mas como tenho um Anjo da Guarda muito atento, agora penso que fiz o melhor.
Afinal qual seria a reação do assaltante ao saber que eu não tinha dinheiro??? Não sei e nunca vou saber.

Fiquei feliz por não ter sido assaltado e talvez não ter sido atingido por algum tiro, mas muito brabo por ter sido roubado do meu prazer de caminhar à noite pelas ruas de Porto Alegre.

(Marco Antonio Souza é advogado)

Um comentário em “O ASSALTO QUE NÃO SE CONCRETIZOU, MAS QUE LIQUIDOU COM UM DOS MEUS PRAZERES… – por Marco Antonio Souza

  • Fico feliz por nada de mais grave ter ocorrido! Mas, devemos agradecer aos nosso governantes e políticos, que nos tiraram o direito de portar uma arma e fazer frente a esta situação. Hoje os marginais nos abordam, pois sabem que não temos em nosso pode uma arma para reagir e, nos tornamos refém dessa corja que são crias de uma governança incompetente que, além de destruir nosso país através da corrupção, também nos tirou o direito de portar armas para nos defender, já que a nossa segurança pública não têm a minima condição de proteger o cidadão.

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