O DRAGÃO VERMELHO E O MALANDRO VERDE E AMARELO – por Eduardo Ponticelli

Após uma década vivendo na China, estou num momento de reflexões. E são inevitáveis as comparações entre o Brasil e o gigante asiático, local que escolhi e que me acolheu por todo este tempo, onde estou empreendendo e vivendo como nunca vivi.

Para a maioria dos brasileiros, a China é um país comunista, socialista, feroz e proibitivo. Um ambiente hostil e de certa forma perigoso. O Brasil, por sua vez, seria capitalista, democrático, país da alegria e da vida fácil. Contudo, a realidade testemunhada por quem vive nesses tão distintos e distantes lugares é muito diferente daquilo que descrevem os artigos e os programas de televisão.

A verdade é que o dragão comunista descobriu na liberdade econômica uma maneira de controlar a maior população do mundo. Os chineses são empreendedores por natureza. Sua história e seu presente indicam que são grandes comerciantes. Compram e vendem como poucos. E é em cima disso que o governo trabalha há décadas. O Estado criou regras e as impõe com rigor. Construiu o maior parque de indústrias renováveis do planeta. Implantou a maior malha ferroviária do mundo, com modernos trem-balas, rodovias de qualidade irretocável, portos e aeroportos modernos e com capacidades operacionais monstruosas. Também, está acelerando o projeto “One Belt One Road”, monumental rota que ligará, via trem-bala, China, Índia, a região da antiga Pérsia, o Egito e a Europa, revivendo a histórica rota da seda.

Outros pontos importantíssimos. Os chineses descobriram, há muito tempo, que a segurança pública é fundamental para o desenvolvimento da economia. Já no Brasil, o simples e fundamental direito de ir e vir não pode ser exercido na plenitude. Frequentar parques, sair para trabalhar ou andar nas ruas a qualquer hora sem nenhuma preocupação com assaltos ou violência são um sonho para brasileiros. Mas na China são fatos absolutamente normais. Qualquer cidade da China é mais segura do que a maioria das localidades europeias e norte-americanas.

O comércio chinês, mesmo em algumas cidades menores, funciona normalmente à noite. Bares e restaurantes lotam para o jantar. Ninguém hesita em função do medo de sair após o escurecer. Os foods streets chineses movimentam uma economia noturna de causar inveja ao nosso pobre e doente Brasil, assolado pela violência, pelo medo, com uma população que é obrigada a andar escondendo-se.

Falemos de tecnologia. Investir em inovações é um dos focos do atual governo. Acesso ao crédito e investimentos em novos negócios com juros baixos estimulam o empreendedor. É o exato inverso do que ocorre no Brasil, país cujo sistema pune empreendedores com a falta de crédito e com juros exorbitantes. O livre mercado na maioria dos setores e a concorrência absurda levou o PIB Chinês a crescer em média 9.6% ao ano entre 1980 e 2017. No mesmo período, o crescimento brasileiro médio foi de 2.2%. Hoje, o operário chinês já ganha mais do que o brasileiro. A classe média chinesa possui um maior poder de compra do que a brasileira e o número de ricos na China é constrangedoramente maior do que no Brasil.

O investimento anual do Estado chinês gira em torno dos 45% do PIB. No Brasil, nem mesmo o recorde dos últimos 40 anos chega perto da média chinesa: o melhor índice foi de 17% do PIB. Neste ano de 2017, a União orçou 0,6% – investimento próximo do zero por parte Estado. Somos um país parado, estagnado, atrasado, sem projetos.

Em 1980, o PIB brasileiro era maior que o chinês. À época, cada país representava cerca de 1% do comércio mundial. Hoje, nosso PIB é de 1,8 trilhão de dólares e continuamos com o mesmo 1% do PIB global. Já a China conta com um PIB 6,2 vezes maior que o nosso: 11,2 trilhões de dólares, representando 13% do total mundial. Nesse período, nada menos do que 400 milhões de chineses ascenderam à classe média. Ou seja, dois Brasis saíram da pobreza no dragão asiático. Especialistas projetam que em 2030 o PIB do Brasil será de três trilhões de dólares, enquanto o da China passará dos 26,5 trilhões – já sendo o maior do mundo e quase nove vezes maior do que o brasileiro.

A China saiu dos anos 1980 possuindo alguns dos piores indicadores econômicos e sociais do mundo para o que é hoje. Há 120 anos a população mundial total equivalia à atual população chinesa. Jamais na história da humanidade houve um crescimento econômico, com distribuição de renda, desse porte. E pouquíssima gente no Brasil conhece a fundo esse sistema.

Falemos, agora, sobre burocracias legais. A leis trabalhistas na China não impendem ou atrapalham a criação de empregos como acontece no Brasil. Contratos entre o empregador e o trabalhador são de comum acordo e eficientes. Muito importante: ao contrário do que se pensa e se fala no Brasil, os trabalhadores chineses não são escravos. A maioria sabe barganhar e tirar proveito das abundantes ofertas de trabalho, trocando de empregos a toda hora, sempre buscando a melhor oferta. Cerca de 40% dos empregados não voltam a seus postos de serviço ao término do ano novo chinês, quando ocorrem as férias coletivas do pais inteiro, para comemoração da entrada do novo ano. Empresas chinesas estão ofertando bônus anuais para quem permanecer no emprego.

A fiscalização em pequenas e médias empresas é pequena. O Estado calcula que gastaria mais recursos na fiscalização do que o valor revertido em impostos. Logo, tem a estratégia de deixar o peixe crescer, fiscalizar e certamente cobrar dos grandes. No Brasil, os grandes são os maiores devedores de impostos, enquanto os pequenos são abocanhados pelo Estado até quebrarem.

O sistema partidário chinês possui uma estrutura meritocrática como poucas empresas privadas: 90 milhões de pessoas envolvidas, treinadas e engajadas com metas, prazos e pressão para alcançá-las. Sem contar na objetividade e na rapidez das punições, principalmente contra a corrupção, o que ajuda na sua rápida redução. Altos funcionários do governo participam de campanhas de prevenção de corrupção, nas quais são obrigados a visitar cadeias juntamente com suas famílias. Recebem a mensagem de que ali viverão caso corrompam ou se deixem corromper. Corrupção pode dar desde muitos anos de cadeia até pena de morte, passando pela prisão perpétua, dependendo do valor desviado. E o prazo de julgamento e sentença é sempre inferior a seis meses.

O dragão sonha em ser o número 1 no futebol e não poupa esforços para isso, mas ao mesmo tempo, planeja ser um país mais limpo. Com uma política de meio ambiente agressiva, corta custos exagerados da máquina pública, persegue os corruptos, implanta conselhos empresariais ligados a escolas políticas de formação de novos líderes e contempla Xi Jinping como um dos maiores líderes de todos os tempos. Enquanto isso, o Brasil precisa ajustar o caminho que vai trilhar depois das eleições de 2018, quando uma mudança ideológica brutal é a única esperança de mudança. Precisamos, urgentemente, provar essa liberdade econômica que a China escolheu para sair do buraco.

China e Brasil se unem e se confundem nos meus pensamentos, com manifestações aparentemente paradoxais, como a de uma democracia mais forte e presente naquele que se anuncia comunista e fechado. A liberdade está nas ruas de Shanghai, a cidade que eu vivo. A prisão, por sua vez, está nas ruas de Porto Alegre, minha cidade natal. A ditadura da violência me proíbe de exercer o meu direito de andar nas ruas brasileiras sem aflição, sem medo, com a certeza de que posso voltar vivo para casa. Na China, Facebook, YouTube e outras rede sociais são de acesso restrito, mas me sinto mais feliz com esta troca de viver como nunca vivi, “feliz”. A segurança traz esse sentimento da forma mais pura e simples.

Mas o malandro verde a amarelo também se faz presente em mim e se manifesta quando, com um recurso tecnológico, driblo as restrições e consigo navegar pelas redes sociais.

(Eduardo Ponticelli é um empresário gaúcho que vive em Shanghai há 10 anos)

2 comentários em “O DRAGÃO VERMELHO E O MALANDRO VERDE E AMARELO – por Eduardo Ponticelli

  • Muito bom teu relato Ponticelli! Nos coloca no paradoxo ideológico. Será que o Comunismo Chinês deu certo? Evidente que este não é o comunismo que Marx sonhou. Sabemos que não é um estado democrático de direito.
    Mas é comunismo? Restringe a propriedade privada? Permite que se pratique religião livremente? Se tem segurança jurídica?
    São questões que se põem, mas claro que olhando para o Brasil se daria respostas negativas a todas elas!
    Então o que pregar? Um estado autocrático “do bem” que dá estas liberdades como acontece na China, ou um estado “Democrático” com alternância no poder por sufrágio universal que dá poder para grupos ou quadrilhas que defendem um estado interventor?
    Ou seja: A Democracia atrapalha?

    Resposta
  • É engraçado esse paradoxo da democracia. Estive em Shanghai e vejo, ao menos para o estrangeiro, que viver em uma cidade daquele tamanho, para nós brasileiros está diretamente ligado a violência urbana, intranquilidade. Era incrível ver a sensação de segurança que viviam todos ali. Onde está a liberdade? Num país democrático igual ao Brasil ou num regime teoricamente comunista igual o da China. Culturas a parte, problemas a parte, Ponticelli nos trás uma visão de que a China pode exportar seu modelo para o mundo? É preciso reflexão e muitas mudanças no nosso país. Que Deus nos abençoe.

    Resposta

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