O QUE GUARDA A CAIXA-PRETA DO BNDES? – por Marcelo do Carmo Rodrigues

A delação dos donos da JBS trouxe à luz nessa semana a compreensão de um esquema gigantesco de corrupção em contrapartida por vantagens diversas, como a facilitação de liberação de empréstimos junto ao BNDES. De um lado, o total de financiamentos obtidos pelo grupo J&F junto ao BNDES é de R$ 4,23 bilhões (valores atualizados podem passar dos R$ 10 bilhões). Do outro lado, segundo Joesley Batista, mais de R$ 900 milhões foram para financiar campanhas de milhares de políticos, incluindo aí a propina de Dilma e Lula, a quem foram destinados USD 150 milhões, em contas no exterior. O total destinado a políticos representa 20% do valor dos empréstimos no BNDES para a J&F, sendo que para Lula e Dilma ficaram com 10%. Isso não quer dizer que todo o dinheiro veio do BNDES: só estou usando o valor como referência.

Até aqui então, dois grupos de empresas privadas já trouxeram uma hecatombe política: Odebrecht e J&F. Mas eles não são os únicos grandes grupos a se beneficiarem da proximidade com o Estado. De 2002 a 2016, sob a batuta de governos petistas, o BNDES firmou 17.617 contratos, somando R$ 777,91 bilhões (valores nominais não atualizados pela inflação). O que vemos é uma clara concentração do número de contratos e de seu valor em uma pequena quantidade de empresas. A maior parte das empresas possui até 5 contratos de financiamento firmados no período. No entanto apenas 11 empresas firmaram mais de cem contratos cada uma. A Petrobras e suas controladas é a grande campeã, com quase 240 contratos firmados e um valor total de quase R$ 54 bilhões. No entanto, alguns grupos que tem orbitado o noticiário nacional também apresentam números impressionantes: o Grupo OI, no qual rondam notícias de influência de Lula, possui 52 contratos que somam mais de R$ 14 bilhões; o Grupo Gerdau, com 115 contratos que somam R$ 4,4 bilhões.

A concentração também se dá no valor dos contratos, ao que cabe frisar: as 300 maiores empresas contratantes do BNDES representam 90% do total emprestado no período, ou seja, somam R$ 620,98 bilhões de reais. Os demais 10% estão divididos em mais de 3.000 empresas. Isso levanta questões para o fato de um Banco Nacional de DESENVOLVIMENTO adotar uma estratégia de eleição de empresas campeãs nacionais visando estimular o crescimento econômico.  Isso pode gerar, como podemos ver pelas evidências vinda à tona nas últimas semanas, o estímulo à atuação de empresários interessados apenas em resultados financeiros, custe o que custar.

Em casos de polícia, costuma-se dizer: sigam o dinheiro. Nesse caso, seria interessante também olhar a lista de beneficiários do BNDES.

(Marcelo do Carmo Rodrigues é Mestre em Economia e professor da Unisinos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

X

Pin It on Pinterest

X
Assine nossa Newsletter