ÀS VEZES OS AMIGOS TÊM RAZÃO – por Diego Casagrande

Tenho um amigo de longa data que não abre mão de seu pessimismo exagerado pelo Brasil. Ele sempre me diz que a saída é o aeroporto mais próximo e insiste que nunca, que jamais seremos um país sério. Chega a ser irritante tanta convicção. Ele afirma que a podridão da corrupção já está gravada irreversivelmente no DNA do povo brasileiro, dos mais baixos aos mais altos escalões. E ensina que para se fazer negócios aqui será sempre necessário reservar um “incentivo” para os fiscais, os políticos, os juízes – principalmente os de Brasília – e para “todo e qualquer sujeito que esteja dentro do Estado e tenha a caneta”. Para viver no Brasil é preciso “aceitar isso”, uma vez que segundo ele “tentar mudar gera apenas desgaste, perda de tempo, sem nenhuma efetividade”.

Hoje, depois que baixou a poeira do julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE, me pergunto se ele está realmente errado em suas profundas convicções. Alguém pode me explicar como, diante de todas as provas, de tantas evidências e de verdades incontestes fixadas no processo, aqueles senhores vestindo preto conseguiram a proeza de absolver a chapa? Como puderam fazer de conta que a dinheirama roubada que inundou a campanha era mera ficção? De que caverna nas sombras saíram estes quatro votos para chegar à conclusão que não houve crime? Como é possível desconsiderar a dinheirama em propina da Odebrecht, da JBS e de tantas outras empresas que associadas aos governos corruptos do PT e do PMDB fincaram um punhal no coração do Brasil?

É triste, mas temos de reconhecer que nosso país é comandado por velhacos. Há 500 anos é mais ou menos assim. A cada ciclo histórico, apesar dos esforços de uns poucos visionários, não conseguimos vencer o passado e fincar a estaca no futuro. E por estarmos sempre na rabeira da seriedade, da ética, dos princípios mais elementares de respeito, acabamos refratários à modernização. O moderno não se coaduna com o jeitinho, a esperteza, a trapaça.

Ver tanto corrupto levando vantagem e se protegendo, criando regras de defesa e julgando em causa própria, no fim das contas cansa. É estafante. E isso explica o quase caos que vivemos nas ruas.

Talvez o Brasil seja mesmo irreversível. Às vezes os amigos da gente é que estão certos.

5 comentários em “ÀS VEZES OS AMIGOS TÊM RAZÃO – por Diego Casagrande

  • Caro Diego;
    Perdoe-me o texto, talvez longo, mas leio tuas postagens e nesse caso acho que sou teu amigo, como esse teu amigo pessimista. Cansei do Brasil. Sou médico, 46 anos, formado em uma universidade publica, filho de professora e de um ex-gerente de oficina. Gero emprego (secretária). Tenho PJ e PF. Ralei, dei duro, conquistei o que eu queria na vida. Tenho uma esposa que é funcionária pública; também ralou muito. Sem filhos. Nosso lema, tema de vida: viajar. Pois bem. O Brasil não tem solução. Nós não temos solução. Cada vez que viajo quer seja para Europa ou EUA vejo que nós não temos conserto. Fico imaginando as estações de metro em Viena sem catraca, os caixas eletrônicos nas calçadas de Lisboa, os parques americanos limpos, sem vandalismo. O respeito pelo cidadão quando um vôo é cancelado. Nós somos amorais. A comparação é inevitável. Tenho colegas que postam coisas no Facebook sobre honestidade e moralidade, mas ganham propina da indústria farmacêutica e de materiais cirúrgicos. Que gostam de viajar como eu, mas o bom mesmo é quando levam vantagem numa conta de restaurante ou hotel mal finalizada ou quando lucram um troco em euro ou dólar. Que o problema é o TSE, mas acham bacana mentir para baixar o preço do seguro. Pacientes que pedem atestado para não trabalhar pelos motivos mais infundados, colegas que dão atestado por conveniência com seu cliente, pacientes das mais variadas classes sociais que burlam o convênio, o INSS, que não querem respeitar os contratos pois agora deixou de ser conveniente. A ocasião faz o ladrão. Entendo existem exceções, nem todos são assim, não posso generalizar. Posso: o brasileiro não é regra pra nada, parâmetro para nada do que for honesto. É só ter oportunidade paramos em local proibido, estacionamos na vaga do idoso ou do deficiente, roubamos as amenidades do hotel ou a caneta de qualquer local como se tudo fosse nosso, de ninguém ou permitido. Gostamos das leis, desde que elas não nos seja diretamente conflituosa. Adoramos fila, mas somos os primeiros a burlar (quem fura as filas nos embarques internacionais?). Estou num intervalo do meu consultório. Trabalho todos os dias com uma meta, como teu amigo: ir embora do Brasil. Cansei daqui. Cansei de nós. O Brasil cansa. Já tentei e fiz coisas para mudar. Fui dobrado. Abraços.

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    • Tão verdadeiro e tão triste!

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  • Diego, seus amigos estão certos e penso da mesma forma. Sou industrial e convivo diariamente com a concorrência desleal de um produto que eu mesmo inventei. Requeri patente, mas no Brasil as patentes só são concedidas depois de +- 5 anos. Até lá a farra é grande. Todos argumentam que pelo produto ainda não ter sido oficialmente declarado Patente Registrada, todos podem se locupletar.
    Descobri que para enxugar gelo, tenho que gastar milhares de reais. E por falar em milhares de reais, eis que recolho esses mesmos milhares de reais em impostos, emprego 20 pessoas e na calma de meu bairro, ao parar para atender uma ligação, fui abordado por 5 meliantes, que me levaram para uma jornada de crime. Felizmente consegui saltar do carro e após a captura dos marginais, prestei depoimento, fiz o reconhecimento para retirar das ruas esses meliantes.
    Dos 5, 4 foram liberados, já que 2 eram menores. Somente 1 ficou preso, com pena de 4 anos. Regime semi aberto daqui à 1 mês.
    Na intimação que recebi da Justiça para depor, estava meu endereço e o das testemunhas de defesa. Creio que eles também receberam o meu endereço.
    Protestei junto ao Juiz, que eu deveria ser protegido pela Justiça, com a ocultação do nome e endereço no processo, mas ele indeferiu sob o argumento que assim é a legislação.
    Estou de malas prontas, escolhendo um novo país, pois aqui, não há solução.
    A corrupção é vertical. Do Servente ao Presidente. Em pequenas ou grandes coisas.
    Vou embora antes que me roubem o direito de decidir o que fazer com minha vida.
    Abraços

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  • De algumas poucas viajens para Europa e Estados Unidos e de inumeras viajens dentro deste gigante Brasil, so posso concordar com o Diego e depoimentos acima. A impressao que tenho e que tudo que estamos vendo, julgamento no TSE, prisoes, depoimentos e tudo mais divulgado pela midia e esfregado na nossa cara diariamente, se presta unicamente para esconder verdades muito mais negras e personagens muito mais nefastos. So nos é mostrado aquilo que pode esconder verdades maiores. So para ilustrar; como foi a compra dos jatos suecos; como a Odebrecht comprou/montou uma industria de armamentos belicos? E por aí vai…

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  • Com raras exceções ( e o Diego Casagrande é uma delas ), a imprensa brazuca tem muita responsabilidade por esse caos moral e ético que impera no Brasil. Graças à conivência da grande mídia tupiniquim, embretada pela farta propaganda estatal, é que disseminou-se a pilantragem e a pilhagem do país. Vejam o exemplo das obras superfaturadas da Copa e o total abandono das arenas …

    Portanto, na minha opinião, a grande mídia brasileira tem parcela de responsabilidade por boa parte dos descalabros que o país enfrenta. Basta dizer que até hoje nenhum veículo se levantou contra a lei da mordaça eleitoral, que impede os jornalistas de emitirem opiniões desfavoráveis a candidatos. Outro exemplo, é que nenhum veículo recusa propaganda estatal ou de sindicatos, mesmo que estes tenham vínculos partidários e adotem viés ideológico esquerdo-comunista.

    A mídia, também chamada de 4º poder, é a prioridade de ditadores que desejam tiranizar sociedades. Com esse objetivo, aliciam, corrompem e, no limite, tentam calar a imprensa. Ora, por que não se vê manchetes do tipo “Brasileiro, você é um otário por trabalhar 5 meses no ano para o governo e não receber nada em troca” ? Noutra, por quê se dá tantos espaços ao futebol a ponto de se ligar o rádio no horário do almoço, à noite e durante os finais de semana, e só se ouvir futebol ?

    Por essas e por outras tantas razões é que eu e minha esposa também estamos indo embora do Brasil. Até o final do ano, estaremos vivendo no Canadá, e lamentando pelos que ficam aqui, reféns de governichos autoritários e incompetentes, e alienados por uma mídia irrelevante e omissa.

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