Domingo. Pego o Metrô para visitar minha mãe. Me sinto um alienígena. Acho que sou o único que não está fantasiado de bebê, gatinho, índio ou malandro. Um dos poucos que não tem uma cerveja na mão. Me dou conta de que estou fantasiado de anti-folião. De cidadão.

Vou rumo à minha mãe e aos seus problemas: 90 anos, morando em uma cidade hostil. Tudo é armadilha: mendigos agressivos, buracos na calçada, a ligação de falso sequestro que a acorda de madrugada. É a herança de descaso, ideologia, corrupção e incompetência que recebemos de quem nos governou nas últimas décadas.

No carnaval os blocos ocupam as ruas. E se for preciso chegar rápido ao hospital?

Cruzo com um rio de gente rumo à folia. Nunca entendi essa palavra.

Nunca entendi parar o país por cinco dias. Estamos celebrando exatamente o quê?

Todos os anos faço essa pergunta. As respostas só pioram.

Confesso que nunca entendi o carnaval.

Cruzo com policiais em uniformes escuros, derretendo sob o sol escaldante. Sei que hoje terão trabalho dobrado, triplicado, multiplicado por dez.

Sei que, ao cair da noite, a minha rua será ocupada por uma procissão de zumbis movidos a drogas, álcool e ignorância que vão espalhar urina, sujeira e terror.

Acontece todos os anos.

No metrô de volta, no vagão cheio de famílias e crianças, um grupo sem camisa toca em volume máximo uma “música” – um funk – que é uma mera coleção de expressões agressivamente pornográficas.

Na minha rua um caminhão com aspecto estranho descarrega centenas de latas de cerveja na rua. Camelôs saem em procissão, cada um arrastando pelas ruas seu isopor. Quantas dessas cervejas foram roubadas?

Quantas serão consumidas por menores de idade?

Mas a pergunta mais importante de todas – de cuja resposta dependem nosso futuro e nossas vidas – é: Quanto tempo vai levar até esse país acordar?

Nota1: Parabéns à nossa Polícia Militar pelo trabalho incansável em conter os excessos – constantes, violentos e numerosos – dos criminosos disfarçados de “foliões”.

(Roberto Motta é engenheiro civil, mestre em gestão de empresas e autor do livro “Jogando para ganhar”)

Este post tem um comentário

  1. Perfeito: comemoramos exatamente o quê?!

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