Bolsonaro, na corrida presidencial e após, reiterou a necessidade do Brasil se inserir competitivamente nos mercados mundiais. Em sua retórica sempre enfatizou a importância da desideologização quanto à internacionalização brasileira.

É muito cedo para avaliações mais robustas e conclusivas. Contudo, mesmo em nível da essencial visibilidade deste fundamental eixo para o crescimento econômico e social do país, “a agitação e o barulho” são muito acanhados!

Pertinente alertar que tanto a corrente de comércio mundial (somatório de exportações e importações) reduziu-se, como também se intensificou o crescimento de cadeias regionais de valor e da “nacionalização” na China e nos EUA. Ademais, preocupam potenciais movimentos protecionistas no mundo, implicando em desvios de comércio referente às exportações brasileiras.

Bolsonaro tem razão quando menciona que tivemos equivocada política externa, na medida em que não celebramos acordos de comércio com países “representativos”, especialmente com europeus e Estados Unidos. Deste modo, não participamos dos fluxos de comércio (custos de importação maiores), dos fluxos de ingressos tecnológicos (pouca inovação) e não alcançamos economias de escala (redutora de custos; nossos custos ainda são elevados!).

O Mercosul, muito antes pelo contrário, não explorou grandes oportunidades potenciais para criação de cadeias regionais de valor, em especial, nas indústrias de produtos primários. Tenho certa experiência acadêmica e profissional na área, e assim não hesito em alertar que falta-nos uma política de comércio exterior de longo prazo, integrada com todos os ministérios possuidores de importantes interfaces com o processo internacional.

Embora a APEX (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) tenha realizado bom trabalho no apoio aos exportadores e importadores, focada na promoção de produtos e serviços brasileiros no exterior, seu papel é vital no auxílio em caráter microeconômico, ou seja, para as empresas especificamente. Em especial na promoção de negócios, imagem e atração de investimentos. Contudo, está longe de significar uma efetiva estratégia nacional de comércio exterior.

É preciso muito mais!

É necessário sinalizar com uma política estável, de longo prazo, permanente e objetiva, devendo essa ser clara e disseminada nacional e setorialmente. Se lançamos mão das teorias de internacionalização, basicamente, podemos sintetizá-las em três principais correntes.

Temos as conhecidas contribuições da Escola Nórdica de Negócios e seu Modelo de Uppsala. Esta incluiu uma abordagem comportamental aos tradicionais modelos econômicos, analisando a tomada de decisão (organização e empreendedor) em relação aos mercados a ingressar e em “como” as empresas se envolvem com atividades internacionais. Uppsala sustenta que a internacionalização da firma consiste num processo cumulativo de aprendizagem sobre mercados externos. Na medida em que a empresa adquire maior conhecimento dos contextos externos (tornando mercados “menos estrangeiros”), de maneira sequencial e incrementalmente, vai se comprometendo cada vez mais com atividades internacionais, culminando na produção no mercado estrangeiro.

Já a RBV (resource-base view) aponta que são os recursos internos distintivos da empresa – tangíveis (financeiros, físicos, tecnológicos e organizacionais) e intangíveis (inovação, reputação) – aqueles determinantes da possibilidade de internacionalizar-se com sucesso. Para isso, recursos e capacidades organizacionais, compulsoriamente, devem ser valiosos, raros, difíceis de imitar e dependem da liderança e do modelo de gestão empresarial, para que a empresa possa articular eficazmente tais competências essenciais; foco no ambiente interno.

Essas duas teorias mencionadas, enfatizam a crucialidade do papel da organização no processo de internacionalização. Porém, parece-me extremamente pouco explorado o papel relevante das políticas institucionais e da necessidade de mitigação de fatores internos deficitários, portanto função do Estado na consolidação, promoção e incremento imperioso do comércio exterior brasileiro.

Não há desenvolvimento econômico sustentável sem um comércio exterior forte e sistemático.

Foram extraordinariamente insuficientes as políticas pontuais, específicas e desintegradas – e para inglês ver – dos governos petistas (uma vez que ficaram no papel!), além do patente e nefasto viés ideológico. O papel das agências governamentais na restrição ou incentivo à internacionalização de empresas nacionais é abissal. Além disso, políticas governamentais são impulsionadoras ou desestimuladoras de atividades internacionais, seja por uma substancial política cambial “realista”, pela implementação de mecanismos facilitadores de investimentos na infraestrutura logística de transportes (arcaica e defasada), seja por um arcabouço legal mais favorável.

Notoriamente, é fundamental ampliar a desburocratização já iniciada, a fim de agilizar processos e reduzir custos administrativos excessivos nos processos de exportação e importação. Neste sentido, o velho Modelo do Diamante da competitividade nacional, de Michael Porter, ainda é bastante válido e “inovador” para o entendimento da importância do Estado no incremento e/ou retração das empresas nos mercados além-fronteiras. O modelo põe em relevo a indústria/setor envolvido e identifica os fatores determinantes – que se auto reforçam – para competitividade internacional: condições dos fatores de produção (especialmente aqueles criados; tecnologia e inovação), condições da demanda (quanto mais exigente melhor), indústrias correlatas e de apoio (integração das cadeias de valor), e a estratégia, estrutura e rivalidade na indústria (estratégia, a meu juízo, a mais importante!). Embora me pareça que é a estratégia empresarial específica da organização a principal responsável pelo processo e êxito na internacionalização, é inegável o papel indutor do governo no desempenho internacional das indústrias.

O governo deve estimular mudanças estruturais benéficas nas indústrias, promover a rivalidade (livre concorrência) nos setores e aplicar – adequadamente – normas sobre produtos, segurança e meio ambiente compatíveis com as necessidades dos mercados e sociedade. A reestruturação global da produção e da comercialização por meio de cadeias globais de valor é intensa e irreversível. É pegar ou largar! Não há outra alternativa real. As empresas precisam se adaptar aos novos padrões de competição global. Por sua vez, as organizações – embora primordialmente dependam de suas próprias estratégias e competências essenciais – precisam obrigatoriamente adotar novos modelos de negócios e estratégias empresariais “inovadoras”.

Não há com ingressar e permanecer com sucesso nos mercados externos sem a sistemática inovação – transformacional e/ou incremental – que se reflete na criação de novos produtos e processos, na abertura de novos mercados e no acesso a insumos, componentes e matérias-primas mais competitivas para a agregação de valor aos clientes e a própria empresa. O governo, com suas políticas institucionais, impacta fortemente no ambiente de negócios nacional (por vezes submensurado), fomentador da inserção externa, e na atratividade do ingresso em arenas internacionais. Cabe questionar: Por que não estimular a localização de negócios críticos a competitividade nacional, tais como aqueles vinculados a insumos essenciais e matérias-primas não produzidas internamente? Por que não incentivar investimentos diretos internacionais em negócios e processos inexistentes no país, além daqueles em infraestrutura? Por que os importadores ainda são penalizados com o AFRMM (Adicional de Frete para Renovação da Marinha Mercante) se a frota nacional está completamente sucateada? Quem será o corajoso burocrata que resolverá em definitivo essa questão?

Creio que o início do governo e das respectivas reformas estruturantes – como a da previdência – são promissores. Entretanto, meu desejo é acentuar o papel crítico do governo na ampliação das exportações e importações brasileiras para o indispensável crescimento econômico nacional. Não basta o fazer administrativo, é forçoso formular, implementar e publicizar uma política consistente de longo prazo para alargar o comércio exterior brasileiro! Tal plano estratégico reduz incertezas e riscos, promove investimentos e assinala prudente continuidade nos processos internacionais. Chegou a hora de levantar alto a bandeira verde-amarela primaz do comércio exterior brasileiro! Não vamos reprisar o soberbo da burrice nacional que entravava a participação nacional nos processos econômicos globais, notadamente pelo viés populista e ideológico.

Creio que Bolsonaro e sua qualificada equipe econômica sabem que pessoas generosas de outrora são más comerciantes (bons em trapaças) e indoutas quanto a criticidade do comércio além-fronteiras! Havia motivações para isso…

Por isso, agora, aguardo breves novidades – alvissareiras!

(Alex Pipkin é doutor em administração)

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