A verdade, por mais cristalina que seja, sempre sofre diante da mentira. A mentira é um inimigo poderoso. Não raro, a mentira é tão envolvente que as pessoas ficam cegas e não veem o óbvio. O ser humano tende, para não se machucar, a acreditar mais em mentiras do quem em verdades.

O psicólogo Leon Festinger já explicou isso com a sua teoria da Dissonância Cognitiva. Segundo ele, há uma necessidade nos seres humanos de procurar uma coerência entre suas cognições – leia-se opiniões, crenças ou conhecimento. Quando há uma incoerência entre as atitudes ou comportamentos que acreditam ser o certo com o que é realmente praticado, ocorre a dissonância. A primeira fase é a negação. Negar a realidade é o mais comum. Na segunda fase muita gente consegue de desvencilhar e encarar a verdade, por mais dolorosa que seja. Mas há uma parcela substancial que vai negar a verdade para sempre. Estes preferirão sempre as mentiras.

Quer maior exemplo do que o golpe do bilhete?

Ainda hoje todos os dias pessoas caem no golpe mais mequetrefe e antigo do país. E por quê? Por que a mentira do ganho fácil, sem esforço, como em um passe de mágica, é simplesmente apaixonante. Se introjeta nas mentes e transforma cidadãos comuns, trabalhadores honestos, em verdadeiros idiotas nas mãos de vendedores de mentiras. Enquanto isso, a dura verdade de que não existe dinheiro fácil, de que dinheiro não dá em árvore e de que viver não é um paraíso, será sempre dolorosa. Uns aceitam, outros não.

A verdade é que não existe almoço grátis, como bem ensinou Milton Friedman. Nada vem sem esforço. A refeição do almoço só chegou ali pelo esforço de muita gente. E se você a tem é porque também se esforçou para isso. Ou seja, para colher é preciso plantar. Então qual a razão de tanta gente atribuir aos outros suas falhas, seus tropeços, suas infelicidades?

Metaforicamente falando, a mentira, não raro, é um delicioso rocambole trufado. Já a verdade muitas vezes é como um limão amargo, de arrepiar até os ossos.

As pessoas, talvez até a maioria, não gostam de ouvir verdades. Verdades tiram da acomodação. É triste constatar que muitos seres humanos são movidos mais a mentiras do que a verdades.

Isso vale para os indivíduos, para as famílias e para os povos de muitas nações, como é o caso do Brasil.

Em nosso país a mentira já foi alçada ao status de cultura. É cultural. O povo prefere acreditar na mentira de que o Estado é capaz de lhe prover tudo, inclusive a felicidade. E por mais que isso seja desmentido todos os dias pela realidade, a maioria prefere negar. É a zona de conforto a qual me referi.

Isso explica porquê os políticos mais mentirosos são sistematicamente eleitos e os que falam verdades inconvenientes se elegerão apenas como exceção. Antes de querer mudar a cabeça dos políticos é preciso mudar a cabeça do povo que os elege.

As pessoas correm como o diabo da cruz de verdades que as desacomodem. Por isso muitas vezes constroem seus castelos em alicerces de mentira. E isso é triste.

O Brasil com déficit anual e crescente de mais de R$ 100 bilhões está quebrado. Meu estado, o Rio Grande do Sul, já tem 1,63 funcionário inativo/pensionista para cada servidor ativo. Lá, o déficit projetado este ano é de mais de R$ 7 bilhões.

Diante da verdade cristalina e inegável de que um colapso está próximo, tem muita gente querendo desidratar a reforma da Previdência, que por si só não resolve o problema. O correto mesmo seria também passar a tesoura em privilégios vergonhosos alcançados ao longo do tempo e marotamente apelidados de direitos adquiridos.

É a turma que não aceita a verdade pois ela dói. O problema é que quando estes abraçam a mentira fazem com que a dor seja sentida por todos, principalmente os mais pobres. É o quadro atual de nosso país, onde a mentira torna-se ainda mais perversa.

De qualquer forma, uma coisa é certa: a verdade pode ser inconveniente mas será sempre verdade. E cedo ou tarde aparece. Não há como fugir dela.

(Diego Casagrande é jornalista e editor do site. Mora nos Estados Unidos)

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