Aposto que sou um dos teus pouquíssimos amigos – quiçá o único – formado em Ciências Sociais, a tão falada “Sociologia” (mas cujo bacharelado também habilita em Antropologia e Ciências Políticas).

Entrei na UFRGS em 1997 e saí em 2000. Fui o único de 130 alunos a se formar na seriação. Ou seja, o ÚNICO que se formou dentro dos 4 anos propostos pelo currículo do curso (isso que fiz duas ênfases: Antropologia e Ciências Políticas).

Todos meus outros colegas não cumpriram a eficiência desejada pela universidade (seja pelo motivo que for). A maioria só queria fumar maconha atrás do RU, enrolar o tempo para continuar ganhando bolsa, ou justificar para os pais que tava estudando gratuitamente na Federal.

Além de me formar dentro dos 4 anos, tive “A” como minha média de notas. Rodei em apenas uma cadeira (por FF – falta de frequência – mesmo obtendo “A” nas provas: tinha uma namoradinha nova que morava perto do Campus e com isso nunca chegava no horário das aulas). Fazia duas graduações ao mesmo tempo (também me formei em Direito, e também dentro da seriação) e em determinados semestres chegava a fazer dezesseis cadeiras concomitantemente.

Meu Trabalho de Conclusão, à época, foi em Ciências Políticas. Pesquisei algo que ninguém sequer ouvira falar até então: “Soberania e Supranacionalidade”: questionava até que ponto um país era soberano no momento em que se sujeitava a comunidades ou organismos internacionais.

Essa matéria, agora, 20 anos depois que me formei, veio a ser a coluna vertebral, a pedra de toque, do que se costuma chamar de Globalismo.

Todos os outros alunos que apresentaram trabalho em Ciências Sociais naquele ano – eu disse TODOS – pesquisaram sobre Orçamento Participativo – que era uma prática adotada pelo PT na Prefeitura de Porto Alegre.

Catorze pessoas se formaram naquele semestre (veja bem, dos 130 alunos entrantes a cada ano, somente 14 se formaram e apenas eu era da seriação original). TODOS pesquisaram um ÚNICO tema em uma ÚNICA linha de pesquisa nas três ênfases do curso (Sociologia, Política e Antropologia).

E o porquê disto? Não só porque Orçamento Participativo era um assunto já batido, portanto mais fácil e mais simples de pesquisar; não só porque meus colegas eram afinados com a esquerda e muitos deles eram filiados às muitas linhas dentro do PT, PCO, PSTU; mas principalmente porque se tu tivesse ambições acadêmicas dentro da Universidade Federal, ganhar bolsa, viajar, fazer mestrado, tu tinha que obrigatoriamente estar alinhado com a ideologia de quem distribuía tais benefícios. E quem distribuía tais benefícios? Os professores coordenadores dos cursos. Todos de esquerda. Tanto que para mim não foi fácil encontrar orientador lá na UFRGS. Foi uma mão encontrar alguém disposto, e, quando encontrei, tive que negociar com uma professora dizendo o seguinte: “Professora, taquí meu projeto de pesquisa nos moldes que a universidade pede, um mês antes da apresentação lhe trago o trabalho e a senhora diz se eu passo ou rodo”. Ela aceitou.

Foi outra mão formar uma banca julgadora, mas no final apresentei o trabalho e tirei 3 “A”s.

Aposto que sou um dos teus poucos amigos que se formou em Ciências Sociais. E se tu tiver outros, aposto que sou o único que não é de esquerda.

Ontem o governo federal disse que, diante da escassez orçamentária, vai descentralizar os recursos das Ciências Sociais e alocá-los em outras áreas de pesquisa mais práticas e de ganhos imediatos, como as engenharias e medicina.

Não tem como não concordar.

A imensa maioria dos que vejo chorando, esbravejando, esperneando contra essa medida na real não tá nem aí pras Ciências Sociais, não tem a mais vaga ideia do que um curso desses tem em seu currículo, muito menos trabalha com isso. Nunca sequer leu um livro de Sociologia por livre e espontânea vontade, no máximo dos máximos leu umas páginas de xerox que o professor despejou garganta abaixo na faculdade – e ainda aposto que achou um saco, achou que tava botando tempo e dinheiro fora fazendo essa cadeira, e ainda por cima não entendeu porra nenhuma.

Quem tá chorando e xingando muito no twitter, sequer leu um livro de filosofia de cabo a rabo, no máximo dos máximos leu um Nietzsche, mas nem sabe daonde o Nietzsche saiu. Não sabe nem o nome de outro filósofo moderno, nunca ouviu falar dos escolásticos, e tudo o que sabe sobre filosofia antiga leu no Mundo de Sofia.

Parece pedantismo meu? Até pode ser. Mas essa é a realidade.

Todo mundo é chutador. Poucos são os de verdade.

Vão chorar pra lá.

—————

P.S.: nessa imagem aí vai meu trabalho de conclusão. Só que o sistema público é tão caótico e também cheio de chutadores, que no lugar do meu nome veio o da minha orientadora, e no ano de apresentação veio o da minha formatura em Direito. Mas não dá nada.

(Fernando Conrado é fotógrafo, formado em sociologia e bacharel em direito)

Deixe uma resposta

Fechar Menu